Reflexão Pedagógica

A Guerra do Paraguai (1864–1870) entre interpretação nacionalista e leitura revisionista: Estado, Exército e identidade brasileira

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O texto analisa a Guerra do Paraguai como evento estruturante da formação do Estado imperial e do Exército brasileiro, articulando a narrativa política e institucional clássica com leituras revisionistas latino-americanas. De um lado, discute-se a interpretação que enfatiza consolidação de fronteiras, fortalecimento das Forças Armadas e construção de um sentimento nacional; de outro, a visão que destaca interesses imperialistas, papel da Inglaterra e devastação do Paraguai. A partir desse confronto historiográfico, o artigo propõe implicações pedagógicas concretas: uso comparado de mapas, imagens, discursos e manuais escolares de diferentes épocas, além de um “julgamento histórico” em sala com múltiplas vozes. Essa abordagem dialoga com habilidades da BNCC (como EF08HI07 e EM13CHS103), favorecendo a análise crítica de narrativas históricas, a compreensão do papel político do Exército e a reflexão sobre memória militar, evitando simplificações e anacronismos morais.

A Guerra do Paraguai, travada entre 1864 e 1870, permanece como um dos episódios mais decisivos e controversos da história brasileira oitocentista. Ao mesmo tempo em que consolidou fronteiras, redefiniu o papel do Exército e contribuiu para a formação de um sentimento nacional, deixou um legado de destruição humana e material, especialmente para o Paraguai. O problema central, para o ensino de História, consiste em articular essas dimensões sem reduzir o conflito a uma epopeia patriótica nem a um simples complô imperialista, preservando a complexidade do processo histórico.

1. Delimitação do problema: Estado, Exército e identidade nacional

Do ponto de vista da história política e institucional, o conflito marcou um ponto de inflexão na trajetória do Império do Brasil. A monarquia, que até então mantinha um Exército relativamente limitado e desconfiava de forças armadas permanentes robustas, viu-se obrigada a mobilizar recursos humanos, financeiros e simbólicos em escala inédita. A guerra exigiu:

  • a ampliação do recrutamento e a criação de corpos de voluntários;
  • a modernização de estruturas logísticas e de comando;
  • a intensificação da propaganda patriótica e da construção de heróis de guerra.

Esses elementos contribuíram para fortalecer a instituição militar, que, no pós-guerra, passou a se perceber como guardiã da nação e protagonista legítima da vida política, posição que se projetará na crise do fim do Império e na proclamação da República. Ao mesmo tempo, a guerra reforçou a ideia de um Brasil capaz de impor sua vontade na região do Prata, alimentando uma identidade nacional ligada à vitória militar e à noção de missão civilizadora.

O desafio historiográfico e pedagógico é mostrar como essa experiência bélica, ao mesmo tempo fundadora e traumática, produziu imagens distintas do Estado brasileiro: ora como defensor da integridade territorial e da ordem regional, ora como agente de um conflito devastador, associado a interesses econômicos externos.

2. Historiografia clássica e leituras revisionistas

A historiografia sobre a guerra pode ser organizada, de forma esquemática, em dois grandes eixos interpretativos, que não esgotam o debate, mas ajudam a orientar o trabalho em sala de aula.

De um lado, a tradição que poderíamos chamar de clássica ou nacional, representada por autores como Francisco Doratioto, enfatiza a racionalidade política e estratégica do Império. Nessa perspectiva:

  • a guerra é compreendida como resultado de tensões regionais no Prata, envolvendo Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, em disputa por rotas fluviais, fronteiras e influência diplomática;
  • o Estado imperial teria agido primordialmente para garantir a segurança de suas fronteiras meridionais e a livre navegação dos rios, fundamentais para a integração do território;
  • o conflito teria contribuído para a consolidação das fronteiras atuais, o fortalecimento do Exército como instituição nacional e a difusão de um sentimento de pertença ao Brasil, acima das lealdades provinciais.

Nessa linha, a guerra aparece, com frequência, como experiência de coesão nacional: soldados de diferentes províncias, inclusive escravizados alistados ou alforriados, lutam sob a mesma bandeira, reforçando a ideia de um Estado centralizado e de uma identidade brasileira em formação.

De outro lado, a historiografia revisionista latino-americana, com autores como León Pomer, questiona a visão celebratória do conflito. Para esses intérpretes:

  • a guerra teria sido, em larga medida, um conflito de interesses imperialistas, no qual o Império do Brasil e a Argentina teriam atuado como instrumentos, diretos ou indiretos, da Inglaterra, interessada em abrir o mercado paraguaio e controlar a navegação fluvial;
  • o Paraguai, sob o governo de Solano López, é frequentemente retratado como um projeto de desenvolvimento autônomo, com algum grau de industrialização e proteção econômica, cuja destruição teria atendido a interesses externos;
  • o conflito assumiu contornos de guerra de extermínio, dada a devastação demográfica e material sofrida pelo Paraguai, com altíssimas taxas de mortalidade masculina e destruição de infraestrutura.

Essa leitura desloca o foco da vitória brasileira para os custos humanos e morais da guerra, sublinhando a assimetria entre os países envolvidos e o papel de potências europeias na dinâmica regional. Ao mesmo tempo, lança luz sobre a dimensão social da experiência bélica, destacando o sofrimento de soldados, civis e populações fronteiriças.

Entre essas duas correntes, há ainda estudos sobre memória militar e construção de heróis de guerra que mostram como o Exército, sobretudo na República, reelaborou o passado do conflito para legitimar sua presença na política. A figura de Duque de Caxias, por exemplo, é elevada a patrono do Exército, símbolo de disciplina e lealdade ao Estado, enquanto a memória de soldados anônimos, de escravizados e de paraguaios permanece mais difusa. A guerra, assim, torna-se um repertório de símbolos, datas e monumentos que alimentam a identidade corporativa das Forças Armadas e, por extensão, uma certa narrativa de nação.

3. Implicações para o ensino e propostas de transposição didática

Para o ensino fundamental e médio, o desafio é transformar esse debate historiográfico em objeto de reflexão acessível, sem perder o rigor conceitual. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) oferece um quadro favorável a essa abordagem. No 8º ano, por exemplo, a habilidade EF08HI07 propõe analisar conflitos e disputas no processo de formação do Estado nacional brasileiro, enquanto EF08HI08 sugere discutir a participação de diferentes grupos sociais na construção da nação. No ensino médio, a competência específica EM13CHS103 enfatiza a análise crítica de diferentes narrativas históricas, e EM13CHS402 incentiva a compreensão de conflitos internacionais e suas repercussões.

Nesse contexto, a Guerra do Paraguai pode ser trabalhada como estudo de caso privilegiado para:

  • comparar narrativas nacionais e revisionistas, identificando argumentos, fontes e contextos de produção;
  • compreender a formação do Estado e do Exército como processos históricos, marcados por continuidades e rupturas;
  • refletir sobre a construção da identidade brasileira em diálogo (e em conflito) com os países vizinhos.

Uma estratégia didática concreta é organizar a leitura comparada de diferentes materiais:

  • Mapas históricos do século XIX, mostrando as fronteiras antes e depois da guerra, para que os alunos percebam a dimensão territorial do conflito e a importância dos rios na geopolítica regional.
  • Imagens de época (gravuras, fotografias de oficiais, monumentos) que evidenciem a construção de heróis e a representação visual do Exército e do Imperador.
  • Trechos de discursos parlamentares, proclamações imperiais e cartas de oficiais, que revelem a linguagem patriótica e os objetivos declarados da guerra.
  • Manuais escolares de diferentes décadas (por exemplo, livros dos anos 1930, 1970 e 2000), para comparar como a narrativa sobre o conflito foi sendo modificada, ora enfatizando a glória militar, ora destacando os custos humanos.

A partir desse material, pode-se propor a atividade de um “julgamento histórico” em sala de aula. Os alunos são divididos em grupos que representam diferentes vozes do período:

  • governo imperial brasileiro;
  • oficiais do Exército;
  • soldados e voluntários da pátria, incluindo escravizados;
  • paraguaios (autoridades e população civil);
  • diplomatas estrangeiros e observadores europeus.

Cada grupo deve construir sua argumentação com base em fontes históricas selecionadas, defendendo uma interpretação sobre as causas, a condução e as consequências da guerra. O professor atua como mediador, garantindo que não se caia em julgamentos morais anacrônicos nem em visões maniqueístas (heróis absolutos versus vilões absolutos). O objetivo é mostrar que a mesma guerra pode ser narrada de modos distintos, conforme a posição social, o interesse político e o tempo histórico de quem fala.

Essa atividade favorece o desenvolvimento de competências como:

  • a capacidade de identificar diferentes pontos de vista em fontes históricas (ligada a EM13CHS103);
  • o reconhecimento do papel das Forças Armadas na história política do país, sem idealizações nem demonizações;
  • a compreensão da memória e do patrimônio militar como construções históricas, que podem ser questionadas e reinterpretadas.

Ao organizar o trabalho em torno de uma linha do tempo (antes, durante e depois da guerra), o professor reforça a noção de continuidade histórica: a guerra como culminância de tensões no Prata, como momento de fortalecimento do Exército e como fator que repercute na crise do trabalho escravo e na emergência do republicanismo.

4. Encaminhamento reflexivo: entre legado e crítica

Do ponto de vista de uma história política e institucional, é fundamental reconhecer que a Guerra do Paraguai contribuiu decisivamente para a consolidação do Estado imperial, para a profissionalização do Exército e para a afirmação de uma identidade nacional brasileira. Ignorar essa dimensão seria empobrecer a compreensão do século XIX e da própria formação da República, na qual os militares se tornam atores centrais.

Ao mesmo tempo, a leitura revisionista e a atenção aos custos humanos do conflito lembram que a construção de Estados nacionais na América do Sul ocorreu em meio a guerras duras, assimetrias de poder e interferências externas. A destruição do Paraguai, a mortalidade massiva e o sofrimento de soldados e civis impõem um olhar crítico sobre a ideia de “vitória civilizadora”.

Para o ensino de História, o caminho mais fecundo parece ser o que integra essas dimensões: apresentar aos alunos a narrativa de longa duração da formação do Estado brasileiro e de suas instituições militares, destacando continuidades e legados, mas confrontá-la com fontes e interpretações que evidenciem conflitos, ambiguidades e vozes silenciadas. Dessa forma, a Guerra do Paraguai deixa de ser apenas um capítulo glorioso ou uma tragédia absoluta e se torna um laboratório de análise histórica, no qual se exercita a leitura crítica de narrativas, o respeito à complexidade do passado e a consciência de que a identidade nacional é, também, resultado de escolhas, disputas e memórias em permanente construção.

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